Essa tal felicidade

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Essa tal felicidade

Começo com uma frase atribuída à Kant: “A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade.”

Sei que parecerei pessimista. Não costuma ser o meu estilo. Mas devo sê-lo. Vivemos tempos muito difíceis, infelizes. A causa dessa infelicidade atribuímos aos outros e de certa forma, estamos certos. Somos também a razão da infelicidade dos outros. Um círculo vicioso, duro.

Vamos aos fatos (sempre eles…):

  • O “escolhido” pelo Presidente para o STF – sem poder sê-lo por todas as razões que já comentei (clique aqui) – relata a quem interessar possa que foi “sabatinado informalmente” dias antes da indicação, por um grupo de senadores, dos quais um é réu na “Lava-Jato”, num insólito barco atracado na marina da casa de um dos senadores;
  • O presidente da CCJ do senado e outros 9 membros da mesma, investigados na Lava-Jato, farão a sabatina “formal” do ministro indicado que, hipoteticamente, poderá julga-los quando estiver no STF;
  • Com a “greve” da polícia no Espírito Santo, lojas são saqueadas e mais de 140 pessoas são mortas.

Faço questão de mostrar o estado das coisas. Reparem que não há limite. Autoridades que no uso(fruto??) da coisa pública não se incomodam que suas atitudes não pareçam morais (sem qualquer trocadilho com o “indicado”, cujos atos como homem público só chegam perto de morais por causa do seu sobrenome).

Dá para imaginar, num lugar razoavelmente sério, que um ministro da justiça, guindado ao STF, se daria ao desfrute de uma “cerimônia privé de arguição” com parte de seus possíveis arguidores oficiais e possíveis réus sob seu julgamento? O que imaginar dessa “sabatina”? Não terá sido coisa outra, começada com “s”, sem ser sabatina? Nesse episódio perdeu ele também o quesito da conduta ilibada, essencial requisito para o cargo almejado.

Na ordem inversa, qual senado do mundo civilizado (como casa de sêniores), republicanos, se prestaria a ter uma “bate-papo íntimo” num barquinho no lago com o próximo sabatinado da vez? Como fica seu papel de julgador?

Onde está aquela necessária aura de probidade que devem ter os homens públicos? Notem que comportam-se como se nada devessem. Nem a mim, nem a você, nem a ninguém.

Entretanto, creio que isso é apenas um sintoma.

O episódio ocorrido em terras capixabas ilustra bem isso. As pessoas ao perceberem que não tinham quem as vigiasse (polícia) passaram a fazer o que queriam. Deu a impressão que pensavam ter o anel de Gyges (Platão). Num rápido aparte, para quem não conhece a passagem, um pastor chamado Gyges encontra, numa caverna, um cadáver que usava um anel. O pastor Gyges furta o anel e descobre que a joia pode torna-lo invisível. Desta forma, ficando invisível, Gyges passa a praticar o mal de todos os jeitos: seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. O conto serve para mostrar que, longe da vigilância, nossos limites avançam. Foi exatamente o que ocorrera agora no Espírito Santo. Imagens que circularam na rede mostravam pessoas de todas as idades furtando lojas. Onde está o limite dessas pessoas? Será que para satisfação de uma vontade pessoal são incapazes de pensar no mal que causam noutras pessoas?

A impressão que me dá é de que estamos tontos, perdidos, desorientados. Como percebemos a grande confusão institucional encravada no estado e, consequentemente, em nossas vidas, parece que perdemos a capacidade de distinguir. Algo parecido como aquilo que Durkheim chamava de anomia social, um estado da sociedade que, sem regras claras, sem valores, sem limites, leva o indivíduo a comportamentos desesperados, extremos e, muitas vezes, até cruéis. Qualquer semelhança com nossa triste realidade será mera coincidência. Será?

Fácil perceber que até os facínoras, como Sérgio Cabral e sua esposa, também se ressentiram dessa ausência de limites. Em recente relato divulgado pela imprensa, o ex-governador preso confessa que “exagerou”. Sua esposa não fazia menor questão de aparentar algum limite, de mostrar resquício sequer de honestidade. Gostava de ostentar brincos que fariam qualquer rainha egípcia sentir-se mendiga.

Cito estes exemplos e poderia referenciar mais, muito mais.

O presidente, por estes dias, anunciou um critério esdrúxulo para “depurar” seus ministérios: ministro indiciado cai, investigado fica (porém afastado). Como explicar isso para o homem mediano? Não é de se esperar que homens públicos, dada a sua importância, sejam absolutamente impolutos? Observem: até nos momentos em que se parece fazer a coisa certa, a coisa certa não é feita pelo meio certo. E aí, já não é tão certa. Posso usar a Lava-Jato como exemplo. Todos apoiam que se varra a corrupção. Todavia, deve-se faze-lo dentro da regra do jogo. Senão, o jogo acaba sendo o jogo de quem canta as pedras do jogo. Para isso servem as regras do jogo. Regras do jogo tornam o jogo possível a todos.

No entanto, o pior disso tudo é que vamos vivendo, dia após o outro, com a sensação de que acordamos e temos que matar o leão da vez. Defendemo-nos o tempo todo, de tudo e de todos. Caminhamos sozinhos, assustados, pensando em nos protegermos e aos nossos. Falta uma certa solidariedade orgânica, a percepção da importância que uns na vida dos outros.

Parece que vivemos iguais aos “Croods”: escureceu, corra para caverna porque o ambiente é hostil!

Este estado do estado é também estado em nossas vidas. Viver fica mais difícil, mais angustiante.

Desse caos vem essa sensação de que a felicidade é algo quase impossível, para poucos.

Será que tem que ser assim?

Não.

Somos capazes sim de cuidar do nosso destino. Ao nos vigiarmos, evitando nossos deslizes, podemos repercutir positivamente nas vidas do nosso entorno. Enquanto não nos preocuparmos com o que fazemos e com os seus reflexos, seremos incapazes de olhar no olho do outro e cobramos que se faça a coisa certa, conforme a regra. A partir do instante que nos tornarmos intransigentes com nossas atitudes, estaremos aptos a exigir que o Estado seja intransigente também.

É impossível ser feliz sozinho.

 

Marcus Vinicius Ramos Gonçalves

Sócio da Bertolucci e Ramos Gonçalves Advogados. Prof. Convidado da Pós-Graduação da FGV-RJ. Presidente da Comissão de Estudos em Comunicação da OAB/SP. Presidente do ILADEM (Inst. Latino-Americano de Defesa e Desenvolvimento Empresarial).

mvgoncalves@brgadvogados.com.br

 

PS:

  1. Está em cartaz aqui em São Paulo a peça Roque Santeiro. A obra é de Dias Gomes. Passados mais de 50 anos, os escritos de Dias Gomes continuam muito atuais.

  2. Uma pergunta que não quer calar: como estão os presídios? Tudo resolvido? Problemas solucionados? Dado o silêncio…

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